quarta-feira, 9 de agosto de 2017

para lembrar depois


Tem épocas que sinto falta de tudo. Uma saudade tremenda e uma dor pelo que passou. Essa tem sido uma dessas épocas e ainda não sei por quê. Às vezes acordo e sinto falta do cheiro de outra cidade, sinto saudades de pessoas que viveram pouco comigo, sinto um vazio grande e inexplicável e vou caminhando, prestando atenção dobrada às coisas, que é pra ter do quê sentir saudades no futuro, que é também pra não cair no buraco do grande vazio. Eu sinto saudades dos sorrisos daqueles que me diziam que não se pode voltar para lugares onde fui muito feliz e queria escrever uma carta perguntando então para onde se pode voltar. Ou nunca se volta? Porque dessa vez voltei. Eu acordei às cinco da manhã, peguei a mochila e fui para o aeroporto. No escuro, peguei a rodovia e em um horário que dificilmente estou acordada já estava em Florianópolis. Foram quatro dias ali e eu queria saber do que quererei me lembrar depois, para já deixar anotado aqui.






Quero me lembrar 1) de como me fascinam as estruturas geomorfológicas e de como é raro ver o sol se por no mar; 2) da sorte que tenho de que pessoas que não me conhecem abram suas casas para eu dormir, banhar, comer; 3) de que essas mesmas pessoas tem amigos e que me enxergo neles, na juventude deles, na perplexidade, na curiosidade, nas coreografias que fazem com os braços quando dançam; 4) de como eu me orgulho das amigas que fiz (pela internet, principalmente); 5) das explicações sobre 5a) reisados, congados e a presença negra na Ilha de Santa Catarina, 5b) corpos, trajetórias, atividades políticas, 5c) o poeta Cruz e Souza, dadas por um homem que estava logo ali na praça XV; 6) de como eu queria muito ir pro carnaval de Pernambuco; 7) do livro que eu estava lendo na época ("Seymour, an Introduction", do Salinger); 8) até do que eu deveria querer esquecer como 8a) as vezes em que fui parar no terminal de ônibus errado, 8b) essa minha mania de deixar escapar comentários ácidos na presença de pessoas com autoridade, 8c) a insegurança que sinto ao falar de coisas que sei, 8d) a imagem de gráficos de probabilidade enquanto o avião entrava em zona de turbulência; 9) da gata Tieta; 10) da majestade o gatinho que correu em nossa direção.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

cômoda nova, quatro gavetas

Eu não devia falar dessas coisas. Já passa da meia-noite, seguro. A gente chegou em casa era o quê, onze-e-meia, né. A gente entrou num show de rock sem ingresso porque eu disse "se a gente quiser, agora dá pra entrar". A moça que cuidava da entrada estava no telefone e quem tinha os ingressos já estava num entra-e-sai. Eles foram na minha frente, o que é completamente impróprio porque eu, ao fazer coisa errada, já dou logo um sorrisinho de quem faz coisa errada. Tentei contrair os músculos, seria patético dar a ideia e afundar os planos. De qualquer modo não nos pegaram, ouvimos ainda três músicas. Voltamos para casa. No meu quarto, uma cômoda esperava para ser montada e foi aí que comecei a pensar nas coisas todas. O silêncio da noite sempre foi acolhedor para essas atividades manuais. No silêncio da noite já escrevi histórias, fiz desenhos, costurei animais de pelúcia. Agora giro uma chave phillips com a palma da mão. Já deve ser mais de uma da manhã, porque as janelas do prédio da frente estão quase todas apagadas. No sétimo andar alguém está acordado, o cara do quinto continua pondo roupa para lavar essa hora e parece que no primeiro dormiram assistindo programa de culinária. Mexer com a madeira assim me lembra meu avô, me lembra eu moleca serrando coisas, ouvindo o tempo todo "não mexe nisso que machuca o dedo". Machucar mesmo o dedo era quando entrava farpa, três dias com aquilo dentro, até não aguentar mais e minha avó pegar a agulha e enfiar nessa camada primeira da pele pra tirar a lasquinha. Meu avô teria levado pouco tempo pra montar a cômoda e ainda passava uma mão de verniz. Eu ainda tô me fazendo, vô. Um parafuso pára de rodar, por mais força e jeito que eu tenha (não tenho), o que faz com que eu me pergunte como que em um grupo de parafusos iguais enfiados em buracos cortados na mesma máquina a laser (o queimado da madeira me leva a crer que é assim que fazem os furos), alguns funcionem e outros não. Eu persisto até o cansaço (que vem rápido). Pulo para outro parafuso. Esse vai. O problema não é a chave nem a mão que a roda. O problema é a junção das três coisas, meu cansaço, essa mania da minha cabeça não parar de abrir portas. Eu dispenso a esses pedaços de madeira uma dedicação que não sabia que era capaz de ter. Por ninguém. E isso me leva a pensar em você. Me leva a pensar se você é possível, se alguém é possível, mas se você é possível. Porque eu queria que fosse. Mas eu não queria me esforçar, nem queria que você se esforçasse. Força a gente usa para parafusar esses móveis, força pra levantar esse lado que vai se ligar ao outro lado e já é quase duas da manhã, força para não fazer barulho cada um desses movimentos. Você é possível? Sem que eu te fale, será que você sente que no seu abraço meu corpo se amolece e eu espero que você decida o porvir? Eu vou girando o móvel calmamente na esperança de que todas as peças estejam juntas no final da rotação, ainda uso a roupa do show, uma bota, o jeans apertado e uma camisa elegante. O casaco sim tive a pachorra de tirar. Minha mãe dizia que roupa de criança tem que ser confortável pra criança poder correr, subir nas coisas, rasgar no joelho. Minhas roupas até hoje tem meio que ser assim porque eu vou querer montar uma cômoda à uma da manhã. É claro que é inapropriada a bota e que no dia seguinte as panturrilhas dariam seus gritinhos, enquanto a cômoda estrelava quase terminada no meio do quarto. Mas o problema mesmo é a palma da mão. O problema é que eu gosto de querer as coisas e eu gosto de fazer as coisas e eu gosto de começar e quando começo vou esquecendo de parar, até que um cansaço extremo me domina, escovo os dentes, tiro a bota, deito na cama. Eu penso uma última vez em você. E adormeço às três da manhã.

terça-feira, 18 de julho de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017

elena ferrante e meu autoconhecimento

A amiga genial, de Elena Ferrante, foi um livro que me proporcionou muito autoconhecimento. A primeira coisa que aprendi é que não consigo desistir de um livro no meio e que ler rápido e querer saber como se desenrolam os fatos dentro dele, não é garantia de que estou amando a leitura A segunda coisa que aprendi nesse percurso é que eu sou muito chata. Isso fica aqui como autocrítica mas principalmente como informe e advertência.


A capa de A amiga genial é muito bonita, com três mulheres de maiôs em cores primárias, modelitos meio anos 1950. Todo mundo tem uma amiga - genial ou não - que postou essa capa no instagram (eu mesma sou essa amiga para muita gente). A polêmica que emergiu ano passado sobre a identidade descoberta da autora, que usa um pseudônimo, foi o início do surgimento massivo de notícias sobre Elena nas minhas timelines. Como não conheço outros escritores que frequentam as altas rodas do mercado editorial com nomes falsos, a controvérsia do pseudônimo parece mais ter ajudado do que atrapalhado a recepção das obras. Não vou entrar nessa discussão sobre privacidade e publicidade. Próximo tópico.

Outra coisa que descobri sobre mim lendo A amiga genial foi que eu não gosto de histórias que tem muitas pontas e, principalmente, que essa pontas não se amarrem dando uma coerência à história. Há, no livro, uma sucessão de eventos, e quando dá aquela sensação de que algo vai ser mais bem detalhado - tipo aquele dedo na ferida da relação entre fascismo e máfia - outro fato mais banal desvia desse foco de interesse. Eu nunca conseguia entender direito onde estava a preocupação da narradora e isso me incomodava bastante. Por isso, até consigo imaginar que o livro funcione melhor como uma adaptação para televisão.

A narradora, pra ser bem sincera, é o motivo para eu achar o livro meio esquisito. Elena - a narradora - decide se vingar da amiga de infância sumida fazendo algo que a amiga de infância pediu para ela não fazer: contar sua história. Até aí, tudo bem. Reza a lenda que Kafka pediu pro amigo tacar fogo nos seus escritos mas o cara decidiu publicar até a última carta encontrada. Minha questão não é moral (até porque de não-moralidades vive o melhor da literatura!), mas é de como a narradora tem acesso minuscioso a momentos em que ela não estava presente. Ou é o próprio deus onisciente escrevendo, ou o texto falha muito ao contar uma história cujos restos são fragmentos de diários e cadernos. De fato, isso é dito no começo do livro, a amiga - Lila - delegou esses diários mas o detalhamento de eventos em que Elena não estava presente me causa um tremendo desconforto como leitora.


Descobri sobre mim que eu funciono muito por analogias, e sentia falta da honestidade de falsos historiadores como o narrador de As virgens suicidas que coleta vestígios da existência das irmãs Lisbon e constrói uma história - às vezes contraditória - sobre suas personagens. Muita gente também elogia Ferrante pela construção de personagens femininos que estabelecem relações de cooperação e competição - seja com amigas, seja com as mães. Nesse assunto, minha tara por analogias me obriga a destacar como livros que cumprem melhor essas funções: O amante, de Marguerite Duras e Segredos de menina, de Maitena Bundarena. O grande mérito de Ferrante, porém, é trazer o cenário napolitano e os embates entre duas línguas - o italiano e o dialeto - no cotidiano da cidade. Só por isso o incômodo com frases muito longas separadas por vírgulas e construções verbais estranhas pode ser minimizado. Não parece ser problema de tradução (disseram que o tradutor do italiano para o português é muito bom), mas talvez um recurso estilístico dessa tensão entre dois mundos linguísticos que Elena frequenta. Essa é a dose de compreensão que me cabe dar à obra.

Para além das questões formais, tem uma coisa que não entendo em A amiga genial, mas essa é realmente pela dificuldade de me colocar no papel da protagonista. A dificuldade aparece não por termos experiências opostas, mas sim por eu conseguir minimamente me enxergar na personagem. E então quando vejo os horizontes de Elena se abrindo para fora do bairro, vai me parecendo menos plausível o aumento do envolvimento dela com as demandas do lugar. Quando ela passa mais tempo fora estudando, convivendo com pessoas de outras localidades, como consegue voltar para a amiga de infância como se tivesse ido só cumprir uma aposta do outro lado da cidade? Meus amigos da rua, com quem eu brincava todos os dias na infância, se tornaram adultos por quem eu passo hoje em dia e mando um "opa!" e recebo tão somente um "e aí, beleza?". Quase admiro a capacidade das duas amigas de não se tornarem completas estranhas uma para a outra, deixando só umas rusgas para desenrolar mais dois ou três volumes.

Se for real que logo menos essa história vai parar na televisão, tenho uma saída para descobrir o que ficou pendente. Pelo menos no audiovisual uma contradição pode ser minimizada: a gente tende a estranhar pouco a câmera nos guiando como narrador onisciente.

terça-feira, 23 de maio de 2017

compilado de pensamentos organizados

Escrever é, de longe, a coisa que mais fiz na vida. E o padrão parece que se mantém. Só esse blog já tem 7 anos. Todos os outros que eu criei pra ficar mexendo nos códigos html me levam para 14 anos atrás. Antes disso existiam as aulas de redação e no Ensino Fundamental eu cheguei a escrever um caderno que contava uma história chamada "Meus livros velhos", em que um casal de livros tinha filhos humanos com quem iam para a chácara encontrar os animais (a obra mais surrealista já produzida em toda América do Sul). Escrever é uma forma de terapia e de organizar meus pensamentos (não é toda terapia uma forma de organizar pensamentos?) e então pra organizar os textos que me organizam está aqui este post.


Lucas é a pessoa com quem eu mais gosto de falar de música, porque ele me apresenta muitas coisas novas (a última foi Giovani Cidreira) e tem uma paciência tremenda com minhas teorias. Ano passado, ele começou um Medium para pessoas publicarem seus textos sobre música, que é um assunto sobre o qual eu gosto de falar de puro achismo, sem nenhum compromisso. Nessa pegada, criei uma conta e escrevi dois textos pra lá:

Além de usar daquela plataforma e dividir o aluguel com o Lucas, também inventamos com Seane uma newsletter - No episódio anterior - para comparar séries às nossas vidinhas banais. Como todo mundo já faz isso mesmo e vê nesses produtos audiovisuais só o que quer e sai por aí falando "NOSSA ISSO É MUITO EU", criamos essa carta por e-mail para contar para as pessoas o que é muito a gente em episódios que assistimos por aí. Dá pra ver uma parte dos textos no link mas de uns tempos pra cá estamos mandando só para os assinantes.


Thaís me pediu para contar sobre como é viajar sozinha para um projeto no blog dela e já faz um tempão e eu gostei do texto que escrevi mas esqueci de contar que escrevi. Então, aqui está o meu relato em forma de "Viajo porque preciso".


Eu sinceramente nunca achei que criar e reproduzir mundos pela escrita me levaria tão longe quanto os meses de abril e maio me permitiram. Passei três semanas escrevendo de dentro de ônibus em que grupos de artistas iam para o interior e litoral de São Paulo. Cada semana eu tive a oportunidade de conhecer novas pessoas e novas expressões em diferentes linguagens e a chance de escrever sobre elas pro site do Circuito Sesc de Artes. Tive a chance de me apaixonar mais de uma ou duas vezes e de ver quilômetros de estradas serem devoradas à minha frente. Fato é que, para além de toda poesia, se não fosse pro meu primeiro texto ser cheio de gifs, eu nem tinha feito as malas. Passei por Cubatão, Guarujá, Bertioga, Fernandópolis, Santa Fé do Sul, Mirassol, Bragança Paulista, Salto e Atibaia. Pra ter uma ideia de o que foram esses dias, deixo os links aqui.