sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

os caminhos da morte

A morte foi uma das presenças mais constantes na minha viagem ao México. Ela surgia em conversas sobre o corpo encontrado na cidade vizinha, nos números alarmantes de feminicídios, nas lembranças recentes do terremoto do mês anterior e na ansiedade pela maior festa do país. Como eu tenho uma relação muito conflituosa com esse que é o mais natural dos desígnios dos seres vivos, já sabia - desde 2016, quando o tema da edição da Capitolina foi Aquilo que não deve ser nomeado e propus uma pauta sobre celebrar a morte - que conhecer o México seria uma maneira de conhecer formas diferentes de viver o finamento.






No dia 01 de novembro, fui ao cemitério. Tal qual no panteão de Oaxaca, ali, no Distrito Federal, o terremoto também deu a alguns túmulos uma bizarra aparência, porque fendas no chão davam a sensação de abertura. Com bom humor, lembrei-me de quando eu era criança e passava bons trajetos cantando com a minha avó que quando o relógio batia uma, toas as caveiras saíam da tumba. Em San Cristóbal, descobri que crianças mexicanas tem sua própria versão dessa música. Foi nesse mesmo cemitério que um túmulo cheio de flores me chamou a atenção. Como não tinha sua face em uma alameda, meti-me por entre outros túmulos para chegar ali. Conforme me aproximei, um barulho esquisito se fez ouvir e eu logo pensei: "Ah, pronto! Me toca ter que lidar com o inframundo bem agora!". Quando cheguei ao túmulo, vi um vulto descendo pela árvore atrás dele. No momento seguinte, um ágil esquilo arrancou do arranjo uma flor laranja, uma cempazuchitl de cor bem vibrante que ilumina o caminho dos mortos a seus túmulos e oferendas, e começou a comê-la. Foi num átimo que se lançou com a flor de volta à árvore, o que deu uma curiosa visão de ascensão das pétalas destroçadas.





No dia 02 de novembro, juntei-me a um casal composto por um francês e uma vietnamita e fomos para San Andrés de Mixquic, um vilarejo localizado no sudeste do Distrito Federal. Ali, pessoas se reúnem nos túmulos de seus mortos, enfeitam as tumbas, ascendem velas. Perguntei a um homem se aquele que eu via na foto era seu pai e ele me contou que ali estavam não apenas o pai, como sua mãe e uma irmã e que cada elemento que eu enxergava no túmulo tinha um significado: três corações feitos de pétalas para os três defuntos e 11 rosas na margem representando cada filho do casal. Dali a pouco, ele me disse, o restante da família se encontraria ali. Isso se dava por todo o cemitério. Famílias chegavam e sentavam juntas, ao redor dos túmulos decorados. Com o pôr-do-sol, velas foram acesas e aquele aglomerado de famílias me remetia às clássicas celebrações natalinas. Minha companheira vietnamita andava fotografando pelo cemitério, coisa que eu não tive muita coragem de fazer. Ela estava muito surpresa com aquilo tudo, e me dizia que nas poucas vezes que foi ao cemitério, a mãe não a deixava entrar em casa sem antes se limpar dos espíritos do lado de fora. O cemitério era justo posto atrás da igreja, e passei a maior parte da reza do rosário (chamaram assim, mas foi só um terço) parada diante de um mesmo túmulo, onde eu parecia que incomodava menos as pessoas. Às vezes um homem aparecia ali para colocar mais incenso e percebi que ele cuidava de outras duas lápides. Puxei assunto, ele me disse que eu estava diante do túmulo de uma tia, e que os pais estavam logo atrás de mim. Mais gente ia chegando, e as famílias cumprimentavam seus vizinhos. Pensei na importância de manter uma relação saudável com os parentes dos mortos cercanos e depois pensei sobre viver como morto e ter que conviver a eternidade com os do entorno.







No dia seguinte, no Museu de Arte Moderna, um pensamento semelhante me ocorreu. Na sala que tinha um recorte da coleção, no último andar do prédio principal, um quadro de Frida Kahlo estava ladeado por um de David Alfaro Siqueiros. Artistas contemporâneos, o famoso muralista participou da primeira tentativa de assassinato de León Trotsky, exilado da União Soviética no México. Frida recepcionou o revolucionário comunista quando ele recebeu do então presidente Lázaro Cárdenas o asilo político. Se um pedaço de nossa alma fica nas coisas que produzimos, só lamento por Frida e Siqueiros estarem tão juntos em um espaço que se vê tão grande.






(Por conta dessa minha questão com a morte, e desse meu interesse em entender como as pessoas lidam de diferentes formas com a mesma coisa, me recomendaram o primeiro episódio da série The Story of God, com Morgan Freeman, que é justamente sobre esse assunto. Repasso a recomendação)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

a internet está morta, mas passa bem

Eu não sei como vocês tem se sentindo a respeito da internet, mas eu tenho tido sentimentos contraditórios com a rede mundial de computadores. Nenhuma novidade, mas possivelmente uma exacerbação de coisas que já estavam aqui. Esse exagero de sensações me levam para caminhos muito confusos. E um deles é a nostalgia daquela época em que uma parte do mundo estava jogando Pokémon, forçando o emulador a aceitar a alternância entre democracia e anarquia, como se naqueles dias tivéssemos realmente nos divertido por aqui. Outros caminhos podem ser um cansaço tremendo e uma curiosidade constante com o que está acontecendo. Afinal, coisas que eram muito simples de entender e que são da natureza da rede - como arranjos e inovações feitos por muitos e de forma desordenada - vai sendo aos poucos entendido como mais um elemento geopolítico em disputa (sempre foram, mas a discussão sobre neutralidade de rede tem colocado em explícita tensão a internet como entendemos e grandes empresas e países poderosos). Tomando banho, dia desses, eu me dei conta de que a minha vontade de ler textos sobre a internet tem uma origem em comum com meu interesse em ler coisas sociológicas em geral: a internet é só mais um dos mundos onde eu habito.

Desde que eu comecei uma rotina de exercícios na academia, tenho ouvido muitos podcasts. Eu chego a desconfiar que só me matriculei na educação física de adultos para ficar ouvindo esses programas de rádio. Não à toa, um dos meus favoritos atualmente chama-se Reply All e teve um episódio muito intrigante sobre o poder e a rede, chamado "The Prophet" (nesse dia, eu devo ter feito os exercícios da forma mais displicente de todas enquanto prestava atenção à história contada).
"Mas é um pouco estranho culpar a Internet. Tipo, somos nós. Essas pessoas que conhecemos e vemos todos os dias, se comportando como eles querem se comportar sob uma capa obscura. É como um espelho. É nossa responsabilidade.
Isso é o que eu sempre acreditei. Mas e se isso não for verdade? E se a gente descobrisse que a interent é ruim não por conta das pessoas que estão nela, mas por causa de pessoas poderosas que a desenham para ser assim?"
Às vésperas de uma campanha eleitoral que tem de tudo para ser bem uó, a internet é um ambiente de disputa e, a essa altura, não apenas entre visões políticas mas entre pessoas e máquinas que se comportam como pessoas. Não é uma novidade absoluta, e há quem defenda que se preocupar com robôs é muito ano passado: o olhar crítico seria mais bem-vindo à facilidade de comprar espaço nas timelines alheias, com algoritmos direcionando a publicidade política. E, então, sem que a gente percebesse muito bem como, até o termo "notícias falsas" ("fake news") deixou de ser pacificado em seu sentido, porque, afinal de contas, quem espalha notícias falsas não pode ser entendido como espalhador de notícias falsas e muitos creem na péssima máxima de que fins justificam os meios (BREAKING NEWS: não justificam).

O curioso neste momento em que as pessoas discutem notícias falsas por toda parte é pensar que na época em que eu fazia faculdade de História já se desenhava para mim uma percepção de que ter toda a informação do mundo diz muito pouco sobre as coisas. A gente ainda se debate na crença da verdade e, por isso, sofremos. Porque a verdade se pretende única e, ao não ser várias, é totalizante, e, ao totalizar, faz a gente esquecer que um fato é cheio de camadas ou dimensões, muitas delas não alcançáveis. Tem uma dúvida que em algum momento baterá à porta da historiadora e a assombrará por tempos incalculáveis: seria nossa disciplina uma ciência se ela é, ao mesmo tempo, plenamente narrativa? Transpondo a dúvida para outra área: poderia uma notícia ser informativa se ela, ao mesmo tempo, é construída por discursos? Viciada em fazer a crítica das fontes, sinto que essa é a contradição maior em que estamos metidos porque, afinal, nenhuma história ou nenhuma notícia é capaz de dar conta do todo; a boa notícia é que até as ciências ditas exatas sofrem de males semelhantes, porque passam por construções discursivas também. Mas as melhores histórias e as melhores notícias - bem como os melhores estudos científicos - são aquelas que são mais críveis e que de modo quase translúcido apresentam seus métodos, seus caminhos e, até, suas lacunas. Só que funcionar assim é funcionar muito mais devagar do que as notícias ditas URGENTES exigem.
"A lógica de consumir mais notícias - conseguir mais informações e fatos, mais números, mais probabilidades precisas - é uma questão de entretenimento, uma chance de indiretamente sentir-se sabendo e alinhar sua identidade com essa sensação. (...) O gosto por mais notícias vira seu próprio fim. (...) 'Notícias urgentes' não se referem tanto às notícias propriamente mas a uma forma de ser no mundo. Uma vez que a ilusão de notícias "que importam" é dissipada, não há mais nenhuma razão que não seja o entretenimento: eu devo aproveitar o fluxo de conteúdo como um fluxo e deixar ele me levar."
Mas não seriam sentimentos contraditórios sem ter alguma coisa de bom por aqui. Então, um pequeno espaço para respiro:

  • Pra quem gostaria de ter pouco trabalho e saber mais sobre temas relacionados a tecnologia e internet, além dos links que estão por todo o lado neste post, recomendo a newsletter da Ada. Outra recomendação é de um veículo que eu acho que faz um bom trabalho jornalístico na internet, justamente porque tenta aproveitar as especificidades do digital: o Nexo Jornal.
  • A Carol me mandou um link sobre aplicativos de paquera publicado no MIT Technology Review que aponta estudos que dizem que essa forma de se relacionar amorosamente com alguém está mudando a cara da sociedade: ao que tudo indica, houve um grande aumento em casamentos de pessoas de diferentes grupos étnicos e de relações mais estáveis no período estudado (talvez isso mostre que as pessoas estão se relacionando com pessoas diferentes delas e gostando? E talvez a convivência entre grupos diferentes seja um bom caminho para enxergar semelhanças entre os diversos?)
  • Tenho alguns sites favoritos que focam em assuntos como arte e design (eu sou a pessoa mais aleatória do mundo, no sentido de quais são minhas coisas favoritas no mundo), como o Hyperallergic, o Artsy e o AIGA. Mas esses tempos tropecei em links que me fizeram ver como o Medium - a ferramenta do Twitter para textões - tem sido usado para esses conteúdos meio artísticos-meio institucionais: o Stories do MoMA e a revista Zumbido do Selo Sesc.
  • Uma amiga me perguntou outro dia o que meu blog é para mim e eu achei uma pergunta engraçada mas muito boa. Como nunca soube escrever diários secretos - até porque se a gente escreve, o segredo não é mais secreto - e como escrevo blogs desde os 13 anos, ritualisticamente criados e apagados até chegar nesta versão da qual eu sinto menos vergonha do que todas as anteriores (mas sinto um pouco de vergonha, sim), ter blog é praticamente parte de quem eu sou, da forma como eu organizo minha vida e meus pensamentos. Eu gosto de escrever para os outros e até com os outros, porque os comentários que surgem a partir daqui me ajudam a pensar melhor. Arrumando a parte de links daqui, percebi que muitos dos blogs que eu costumava ler na época do Google Reader (jamais perdoarei o Google pelo que ele fez com essa ferramenta, teje registrado) já não existem mais. No natal, dei de presente a outra amiga o livro da Leonor Macedo que surgiu do blog Eneaotil, que nós duas acompanhávamos religiosamente antes mesmo de nos conhecermos. Muita gente mudou muito e desistiu desse formato e muita gente mudou muito e continua escrevendo por aí. Olhando pras abas abertas enquanto escrevo isso, sinto que a blogosfera ainda tem uma vizinhança agradável que não se importa de me ver de moleton andando no corredor do condomínio. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

donas-de-casa pessimistas


Mais um ano em que as pessoas lá de casa desejam os mais sinceros votos de que as festas de todo mundo sejam ok, bem como o ano que chega.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

antes que o verão me alcance








É quase verão de novo. E as cores e os sorrisos do Rio de Janeiro ainda estavam dentro de um rolo plástico, escondido dos olhos da gente. O diminuto espaço também guardava uma quantidade absurda de lembranças, algumas que eu até tinha esquecido. Meu aniversário, Carnaval, outros aniversários, festas juninas. Eu poderia jogar essas fotos aqui e me esquecer delas pra sempre ou para quase sempre e quando eu voltasse a vê-las eu tentaria sentir cheiros, adivinhar a temperatura ambiente, entender o que estava passando na minha vida. Está cada vez mais claro que alcançar isso é impossível e, nessa impossibilidade, eu só arrisco dizer que essas imagens devem contar alguma história que eu ainda não dou conta de ler. Tateio sentidos nos fragmentos, esboço textos desajustados. Tenho um pouco de vergonha, da minha alegria, da minha preguiça, de mostrar e contar essas coisas. Às vezes parece que tudo tem mudado muito rápido mas talvez essas fotografias sejam uma honesta contribuição à crença de que - para além da beleza do mutável ou da instabilidade do contemporâneo - montes de felicidades cotidianas tem conseguido se manter.











quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

era 2 de outubro

Para sair da zona norte, um dos caminhos mais utilizados era a Ponte Cruzeiro do Sul. Desde muito pequena, então, eu via da janela do carro uma estranha construção em que pernas de homens ficavam penduradas entre grades. Eu pensava que os homens que escolhiam ficar nas janelas eram como eu, que assistia à televisão de ponta-cabeça, me balançava perigosamente em corrimãos, escalava as grades do portão da casa da vó. Demorou alguns anos pra eu entender que naquele prédio homens viviam mesmo era amontoados em espaços minúsculos, e levou ainda mais tempo para eu descobrir que um evento de quando eu tinha dois anos de idade provavelmente assombrava uma parcela dos donos daquelas pernas que eu via da avenida. O massacre tinha sido em 2 de outubro de 1992.

O Carandiru foi ao chão, virou parque mas abriga um memorial. O livro de Dráuzio Varella foi feito filme por Hector Babenco. "Diário de um detento" é um marco na nossa música e a obra de Sabotage, que estrelou o filme, recebeu uma homenagem fortíssima há mais ou menos um ano. Culturalmente, a memória resiste. Em termos de justiça, é doloroso lembrar: a soma dos 111 mortos - imagina-se que foi mais do que isso - viu os partícipes do massacre serem amplamente inocentados.


Ano que vem termina em 8. Jornais, sites, revistas, eventos acadêmicos vão falar de 1968. Vão falar da decepção socialista na Tchecoslováquia, da revolução moral francesa - menções a pílula anticoncepcional e à minissaia compõem o bingo - e com quase certeza absoluta haverá inúmeras discussões sobre o endurecimento do regime ditatorial no Brasil com a assinatura do Ato Institucional Número Cinco. Pouca gente vai lembrar de Tlatelolco, na Cidade do México, palco de uma ação militar contra estudantes em greve. O número de vítimas nunca foi consensual, variando de dezenas a centenas. O massacre foi em 2 de outubro de 1968.

O assassinato em praça pública de pessoas em um ato contestatório contra o governo mexicano foi documentado por Elena Poniatowska no livro La noche de Tlatelolco: Testimonios de historia oral. Passei a maior parte da minha viagem ao país lendo esses relatos perturbadores. O grande mérito da jornalista é apresentar depoimentos diversos coletados nos dois anos que se seguiram ao evento. O livro foi publicado pela primeira vez em 1971. Muitos dos depoimentos são contraditórios entre si e assim Poniatowska deixa claro que não há verdade absoluta. Por isso, apesar de eu sentir vontade de grifar algumas passagens, me contive. Não queria validar mais ou menos o que é documento histórico e que passa pela subjetividade de um monte de gente (que se posiciona sobre luta sindical, interesses estudantis, o papel da imprensa e as escolhas de polícia e governo). Queria que as palavras das vítimas tivessem um peso absoluto, em si mesmas, que fossem igualmente importantes e incomparáveis.


Conforme fui me aproximando dos relatos que falavam especificamente do dia, mais me lembrava do 2 de outubro paulistano. Decidi então ir a Tlatelolco ver a Praça das Três Culturas que tem esse nome porque o espaço é disputado por ruínas pré-colombianas, uma igreja da época da colonização e um conjunto habitacional no entorno. Famílias viam as ruínas, enquanto eu sentia mal-estar ao imaginar aquilo que os textos me contavam. Um grande grupo de jovens escolheu a praça para assembleia em meio a uma greve estudantil. Na semana anterior, em manifestação em favor da autonomia universitária, inúmeros estudantes tomaram a praça central da cidade, o Zócalo. Em Tlatelolco, homens de luvas brancas alvejaram o público, indiscriminadamente. O grupo de ação militar tinha o nome de Olympia, porque o país estava prestes a ser sede olímpica. A morte e a prisão de manifestantes foram caminhos para impor a ordem necessária para que um evento de magnitude mundial acontecesse sem ruídos. A memória das Olimpíadas de 1968 eu encontrei em loja de museu. A dos covardemente assassinados só vi no spray de anônimos pixadores.